A educação na quebrada do descaso

Sabe o que é uma “quebrada?” E um “pino”? Quem mora aqui no Parque Santo Antônio (Zona Sul de São Paulo), sabe. E sofre com isso. As “quebradas” das 300 favelas localizadas na região são formadas por espaços sem asfalto, lixo amontoado em terrenos baldios e nas ruas, zonas de tráfico e um labirinto interminável de vielas onde os barracos se colidem para dividir um território saturado. Tente imaginar esta cena e acrescente o odor da falta de tratamento de esgoto e o mínimo de saneamento básico. Apenas tente.

O “pino” corresponde a um grama de cocaína que qualquer um pode comprar por 10 reais. Uma trouxinha de maconha você leva por 5. Essa é a realidade no entorno da Casa do Zezinho, a realidade que enfrentamos todos os dias como educadores. É como descreveu o escritor Marco Lopes (um ex-zezinho) em seu primeiro livro: é uma verdadeira Zona de Guerra.

Quando vou dar palestras aos estudantes e empresários, minha apresentação é como um soco na cara. Eu admito, é sim. Alguns choram, outros abaixam a cabeça, muitos desacreditam. Já vi gente até sair da sala. Recebo muita crítica por isso, pra pegar mais leve e coisa e tal. Sem os efeitos especiais que tentam embelezar a favela nas novelas e no cinema fica mais difícil de encarar, né?

O Parque Santo Antônio possui 270.000 moradores em situação de total abandono desde os anos 70. Aqui não existe plano de renovação, apenas de contenção. Aí sou obrigada a escutar nestes programas populares que fazem a cabeça do povo sobre redução da idade para pena de morte e outras besteiras que me tiram do sério. Já perdi muitos Zezinhos para o tráfico, para falta de oportunidade, para o descaso. Mas o que me faz brigar mesmo é a falta de consciência de quem deveria ser e dar exemplo. Como dizem por aqui, “Se liga, mano!”

Favela não é comunidade. Mas pode ser, se houver atitude e vontade de mudar. Não é com a troca de palavras que se resolve as necessidades básicas de uma criança que não consegue dormir por causa do barulho dos tiros, dos bailes funk (única alternativa de diversão para que não tem um parque nem cinema) ou por ter que cuidar do irmão mais novo, tendo ela mesmo 5 ou 6 anos. Comunidade é para quem divide um “bem comum”, o resultado positivo das conquistas e celebram juntos. Celebramos o adolescente que se mantém nas Oficinas da Casa do Zezinho, o que aprendeu a ler e o outro que já sabe somar e dividir. Comemoramos a vida que é respeitada todos os dias. Pelo menos aqui dentro. E como fica lá fora?

Aviso que vou continuar com as minhas apresentações que mostram barracos montados perto dos córregos, crianças brincando descalças no lixo e gente que realmente precisa ser reconhecida como ser humano. Eu não vendo pasta de dente. É o ato de educar que me faz sorrir. Até a próxima.

2 comentários sobre “A educação na quebrada do descaso

  1. Tia Dag, Tia Dag, minha querida Tia Dag: tantos ensinamentos e tão poucos ouvidos públicos para prestar atenção. Enquanto as prefeituras e governos de estado contratam “especialistas”, os reais especialistas estão nas quebradas, educando, quebrando uma montanha todos os dias para minimizar o quase irrecuperável. Deus a abençoe!

  2. educação na quebrada – educação quebrada – quebrada: aonde moram os quebrados – brinquedos quebrados – sonhos quebrados – cabeças quebradas – vidas quebradas….

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