Educação se aprende (con)vivendo

“Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência.”
José Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol.

Tempos atrás, eu tomei uma ação aqui na Casa do Zezinho que espantou muita gente: proibi a troca de e-mails internos durante duas semanas. Caos e pânico geral. Reclamações diversas sobre atraso nos processos e eu nem aí. Por que eu fiz isso? Para gerar movimento e autonomia. Os educadores agora estavam saindo de suas cadeiras e de todo aquele fluxo de trabalho que enfrentamos com coragem mas que gera um bom stress. Estavam conversando, se vendo mais e fazendo circular as ideias. Conseguimos reduzir a caixa lotada de e-mails para o que era realmente importante e acabamos por ganhar mais tempo. E ficamos menos dependentes da telinha do computador e da tecnologia.

Eu adoro qualquer ferramenta que contribua para aumentar o contato humano. Carrego meu tablet pra lá e pra cá. Mas não vou usá-lo para falar com quem está ali na outra sala. Principalmente sendo educadora (e agitada como sou). Nossa sociedade se acostumou a colocar o filho no joguinho do computador, na frente da televisão, no desenho animado. Cinco pessoas em uma sala com os olhos vidrados, teclando mensagens ou tentando passar aquela fase do game. Estamos juntos mas separados. Cadê o aprendizado? Cadê o convívio?

Cada oficina e projeto da Casa do Zezinho foi pensado com base na troca de experiências que transformam as relações de comportamento com a família, o bairro, os amigos e a sociedade. A inteligência de nossas crianças e adolescentes aumenta a cada dia e precisamos estar prontos para cuidar de toda essa bagagem em formação. Isso não vai acontecer no piloto automático. Existe uma grande diferença entre a capacitação técnica e o amadurecimento emocional que, no caso do jovem de periferia, é mais sensível pela falta dos recursos e daquelas necessidades básicas que vivo repetindo sempre. É por isso que a Pedagogia do Arco Íris (sem hífen) é fundamentada nos quatro pilares da Educação: Ser (Espiritualidade), Conhecer (Ciências), Saber (Filosofia) e Fazer (Arte).

Um belo exemplo é a nossa Roda de Formação (veja aqui) que trabalha a convivência com elementos lúdicos como aquarela, argila, etc para reaproximar o adulto do seu lado criança e vice-versa. Toda essa sensibilidade é repassada para os Zezinhos na forma de exposições e projetos que visam ampliar todas as dimensões e possibilidades do desenvolvimento humano. Não negamos nem a qualidade do que a tecnologia nos dá, nem do que a nossa própria natureza oferece. Pelo contrário: É coração e mente em sintonia. É educador reaprendendo a ser criança e criança amadurecendo para vida adulta e responsável. É lindo e todo mundo ganha.

Experimente fazer isso uma vez por semana, uma hora por dia. Desligue tudo. Você pode ler um livro (e-book não vale), fazer uma pintura, uma escultura em argila, mexer na terra ou mesmo bater um papo para conhecer o universo de quem está ao seu lado. Con-viver (escrevi separado mesmo) é viver com. Seus amigos virtuais e todo esse mundo eletrônico vai continuar lá. E você vai ganhar muito mais neste mundo aqui, eu garanto. Até.

3 comentários sobre “Educação se aprende (con)vivendo

  1. Maravilha, Tia Dag! Vou repetir a sua experiência aqui na Empresa e ainda vou colocar o pomposo nome de “PROJETO TBC” ou mais popularmente Projeto Tira a Bunda da Cadeira!

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