Daniel Garroux, Educador da Casa do Zezinho: As palavras que nos acompanham

Sempre fiquei muito curioso com o fato de que uma palavra pode significar várias coisas diferentes. Você já ouviu falar da palavra “áporo”? Pois saiba que essa esquisita palavra de origem grega pode significar pelo menos três coisas diferentes: ela pode nomear um “inseto himenóptero” (“himenópteros”, salvo engano, indica insetos que cavam túneis e também são capazes de voar); “áporo” pode caracterizar também uma questão de difícil resolução (ou seja, uma “aporia”) e, finalmente, pode designar uma orquídea. O poeta Carlos Drummond de Andrade aproveitou esses três significados em um poema incrivelmente elaborado (que se chama, justamente, “Áporo”), cujo enigma demorou muitos anos para ser descoberto (poderíamos dizer, nesse sentido, que o próprio poema era uma aporia, ou seja, um “áporo”!). Os poetas, aliás, adoram jogar com os múltiplos significados das palavras, com os seus sons, seu ritmo e com as relações ambíguas e infinitamente complexas que elas estabelecem com o mundo fora delas. A palavra “áporo” não é muito comum, mas a linguagem do dia-a-dia é também bastante complexa, de modo que nem mesmo o computador mais poderoso já criado pelo homem poderia decifrar completamente a linguagem humana e apropriar-se dela para escrever um poema ou bater um papo com os outros computadores sobre o resultado da última rodada do campeonato, a linguagem escapa à lógica. “Bater um papo”, já pensou em como um computador entenderia uma expressão como essa se conhecesse apenas o significado que essas palavras possuem no dicionário? Ao contrário dos computadores, nós utilizamos a língua com imensa facilidade e desenvoltura.  Outro dia fiquei curioso a respeito da expressão “dar um rolê”. Geralmente nós usamos esse tipo de expressão sem parar muito para pensar no que cada uma de suas palavras significa. E fazemos muito bem, se tivéssemos de considerar o significado de cada uma das palavras que empregamos, nós provavelmente demoraríamos horas para formar uma frase. A palavra “rolê”, por exemplo, vem do francês “roulé”, derivada do verbo “rouler”, que significa, “descrever um movimento circular, rolar, enrolar”. É claro que, mesmo sem saber disso, podemos dizer que saímos  “para dar um rolê” sem ter frequentado nenhum curso de francês. Contudo, apesar de serem ágeis ferramentas comunicativas, as palavras também podem nos enganar, são frequentemente traiçoeiras, e podem induzir-nos a enganos terríveis, revelar falhas, contradições, segredos. Afinal, quem nunca se arrependeu tarde demais de ter dito algo no passado (como uma promessa, por exemplo), ou mesmo imediatamente depois de já tê-lo dito?

Cada pessoa possui um grupo de palavras no qual se sente mais à vontade. Afinal, as palavras espelham, criam e viabilizam nossa relação com o mundo, elas não estão isoladas em um dicionário, como peixes num aquário. Um profissional da saúde certamente se sente mais à vontade do que eu com palavras como “azitromicina”, que soa estranha e misteriosa para mim. Como toda atividade humana, também a educação possui seu vocabulário próprio, que certamente não precisa ser tão técnico quanto o da medicina, mas que tampouco deve ser deixado de lado, como algo dispensável. Ao contrário do que acontece com profissionais que precisam lidar com nomes estranhos e pouco usuais, o vocabulário do educador é formado por palavras bastante corriqueiras. No entanto, embora se trate de palavras comuns, só o educador sabe o quanto elas são profundas. Todos conhecem, por exemplo, a palavra criança. Alguém que queira saber mais a respeito dessa palavra, pode facilmente consultar o dicionário, por exemplo, onde encontrará seu significado tradicional e, com um pouquinho mais de curiosidade, sua etimologia (“criança” provém da aglutinação do verbo “criar” com o radical “-ança”, “indivíduo na infância, filho”). No entanto, será que isso basta para realmente explicar o que é, afinal, uma criança? ‘Ora’, alguém poderia responder (de modo muito parecido com o dicionário), ‘uma criança é apenas um ser humano em seu estágio infantil’. Não sei se meus colegas concordariam comigo, mas minha experiência como educador me mostrou que uma criança é muito mais do que isso. Na verdade, penso que esse tipo de definição soaria como uma ofensa para qualquer educador. Dizer que uma criança é um “pré-adulto”, como faz o dicionário, é reduzir sua existência a uma única finalidade, é criar um ponto de chegada para o qual convergem todas as suas ações – uma teleologia, para usar uma palavra mais filosófica. Entretanto, a criança não  existe para cumprir uma única função, ela tem suas próprias vontades, seus próprios desejos e necessidades. Embora o educador possa não estar familiarizado com palavras como “himenóptero” ou “azitromicina”, ele pode tomar as palavras que fazem parte de sua atividade e, com a ajuda da reflexão e o suporte da linguagem, lançar luz sobre os significados que não estão no dicionário.

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