Daniel Garroux, Educador da Casa do Zezinho: Desinstitucionalização Parte I

Olá, pessoal. Hoje decidi começar a apresentar um texto de François Dubet, um sociólogo francês (professor da Universidade de Bordeaux e discípulo de Alain Touraine, enfim, um cara bem estudado) que tem refletido muito sobre a crise das instituições em geral, mas principalmente a da Escola.

Os textos deles tocam em questões fundamentais e fazem isso de uma maneira direta, sem rodeios. O primeiro deles explica por que a escola, nos moldes tradicionais, deixou de funcionar (que ela parou de funcionar agente está cansado de saber, mas será que a gente sabe explicar o porquê?). Expõe também as dificuldades que uma nova escola terá de enfrentar. Ele se vale do conceito de “desinstitucionalização” para explicar como instituições tradicionais da sociedade moderna, tais como a família, o trabalho e a escola, apesar de continuarem existindo, sofreram um esvaziamento. Essas instituições, vale lembrar, tinham o papel de formar indivíduos (é claro que esse “formar” pode ser entendido de várias formas…).

Como o texto de Dubet é um pouco acadêmico, decidi pontuá-lo com comentários que servem tanto para explicar alguns conceitos e referências quanto para questionar algumas afirmações e “puxá-las” para mais perto de nossa realidade.

O primeiro texto se chama
“A FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS: A DESINSTITUCIONALIZAÇÃO”.

Vou apresentá-lo em partes. A primeira parte do texto fala, entre outras coisas, sobre a escola tradicional e suas funções (meus comentários, pitacos, birras e interferências estão em vermelho, entre colchetes). Mãos à obra:

A FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS: A DESINSTITUCIONALIZAÇÃO
François Dubet

• DESINSTITUCIONALIZAÇÃO

“A palavra ‘desinstitucionalização’ não é muito bonita, mas parece adequada para designar a mudança  fundamental do modo  de produção dos indivíduos nas sociedades contemporâneas.

[É curioso que esse uso da expressão “modo de produção”, não? Quer dizer, seria comum falarmos, por exemplo, em “modo de produção de mercadorias”, como fazem os economistas, mas peraí? “produção de indivíduos”? Vocês já pensaram no quanto a arquitetura e o funcionamento da escola se parece com os de uma fábrica? A fábrica e a escola tradicional, aliás, surgem juntas. Antes disso, os saberes eram transmitidos de modo artesanal. Dá o que pensar, não?]

Por muito tempo, consideramos a escola, a família e a Igreja como instituições. Na tradição clássica, cuja síntese foi feita por Parsons, [Talcott Edgar Frederick Parsons (1902-1979) foi por muitos anos um dos Sociólogos mais conhecidos nos Estados Unidos e no mundo]. a instituição era concebida como um conjunto de papéis e de valores “fabricando”  indivíduos  e  personalidades. [Como  diz  Elias Norbert Elias (1897 – 1990) sociólogo alemão. Os acadêmicos adoram citar outros acadêmicos, né? Mas não é preciso conhecer esses caras todos para entender o texto, eles estão aí apenas para dar autoridade aos argumentos de Dubet]  sobre  o  processo  de  civilização,  os indivíduos tornavam-se cada vez mais autônomos, cada vez mais “intra-indeterminados” segundo Riesman, porque a forte interiorização de princípios gerais constituía um modo autônomo de ação e de julgamento  de  si e dos  outros. [Aqui há uma explicação importante sobre o funcionamento da escola tradicional. Dubet utiliza o argumento do David Riesman para sugerir que, na escola tradicional, os indivíduos só estariam preparados para a autonomia quando tivessem internalizado os “princípios gerais” de socialização, ou seja, a lei e a ordem. Acho que a criança era vista, nessa instituição, como um pré-adulto, que não sabia conter seus instintos. Depois de internalizar a ordem, o indivíduo poderia dispor da liberdade de seu “julgamento autônomo”]. Na instituição, a socialização  dos  indivíduos funciona como  um processo paradoxal, através do qual o indivíduo se identifica primeiro com os outros, os adultos, depois com os valores nos quais os outros acreditam, porque as regras e as proibições impedem a criança e o jovem de se dissolver no amor do mestre, dos pais e dos adultos em geral. [Quer dizer, o aluno via no professor uma figura paterna (vale lembrar que o pai, na época, significava a autoridade encarnada) com a qual ela se identificava (o medo da autoridade não exclui a identificação amorosa: as pessoas, nessa época, amavam os pais, mesmo sentido muito medo deles. Esse mesmo sentimento ambíguo era transferido para os professores). Contudo, o professor repudiava o amor da criança por meio das regras e proibições. A criança aprendia, assim, que há uma instância superior aos homens e às suas vontades: essa instância era a instituição. Primeiro a instituição escolar, depois todas as outras, como o trabalho, o direito, etc.] Parsons mostrou muito  bem  como  a  concepção  freudiana  da  socialização  influencia,  em  grande  medida,  esta representação geral. [Existe uma máxima freudiana que explica isso muito bem: não há civilização sem repressão. Para Freud, a repressão representava a essência do processo civilizatório. Uma visão bem pessimista do homem, não acham? Mas foi com base nessa visão que as instituições tradicionais foram criadas…]

A escola republicana francesa durante muito tempo correspondeu a esta definição, em razão da forte  afirmação  de  seus  princípios  e  de  suas  disciplinas.  A  relação  pedagógica,  através  da aprendizagem de conhecimentos e de métodos, por meio da identificação do aluno com o mestre, direciona  os  alunos  para  os  valores  gerais,  universais  que  devem  moldar  a  personalidade  dos indivíduos. Desse ponto de vista, a escola elementar republicana “fabricava” cidadãos franceses, o liceu profissional, operários e o liceu clássico, os homens de cultura. [Ou seja, a escola tradicional (Dubet pensa principalmente na escola francesa) servia para dividir os indivíduos em dois tipos básicos: trabalhadores braçais (basicamente, operários das fábricas e trabalhadores intelectuais (engenheiros, administradores, médicos, jornalistas etc.). Essa divisão corresponde às sociedades urbanas que tinham passado há pouco tempo pela Revolução Industrial] O mesmo raciocínio vale para a família e para a religião. A família é uma instituição, na medida em que os papéis sexuais e de idade se impõem  aos  indivíduos  como  realidades.  A  família  moderna  o  é  ainda  mais,  quando  postula  a adequação dos papéis e dos sentimentos. F. de Singly tem razão ao afirmar que, deste ponto de vista, a primeira metade do século foi a idade de ouro da família conjugal, porque ela repousava sobre a adequação  dos papéis  e dos  sentimentos  amorosos. [Aqui ele está mostrando como, em certa medida, todas as instituições tradicionais funcionavam de maneira parecida, mesmo a família, que era uma espécie de sociedade em miniatura: “No modelo tradicional da família patriarcal, a definição das funções se dava, sobretudo, em razão do sexo. A mulher desempenhava o papel de  esposa e mãe, enquanto ao homem competia o dever de zelar pela unidade familiar, bem como pelo seu sustento. A posição de inferioridade não era apenas da mulher, mas também dos filhos, que deviam respeito e obediência ao pai. Era a reprodução do modelo em que o marido era o provedor, e a esposa, a dona de casa, modelo de cunho essencialmente econômico.” (TORRES, Anália Cardoso).] Da  mesma  forma,  a Igreja  sempre  procurou conciliar o dogma e a fé através de diversas composições sociais e da ação dos padres, mediadores entre Deus e os indivíduos. [Essa afirmação, ao contrário do que possa parecer, não contém nenhum juízo de valor, ele está apenas mostrando que o papel institucional da igreja (ou seja, não está discutindo ou julgando a fé católica, não é esse o papel do sociólogo) seguia a mesma lógica que regia as outras instituições.”]

Bom, é isso aí pessoal. Essa é só a primeira parte do texto. Espero que ela tenha provocado algumas reflexões. Acho que a gente nunca deve concordar com aquilo que lê, penso que a função de um texto, mais do que produzir consentimento, seja despertar reflexões e questionamentos. Por exemplo, é muito comum ouvirmos as pessoas mais velhas elogiarem a escola de antigamente, em que o professor era respeitado tanto dentro quanto fora da escola. E nesse texto? Será que o autor faz um retrato justo da escola tradicional? Será que ele não está exagerando ou generalizando? Em que medida esse diagnóstico se aplica à nossa realidade? Será que a escola de antigamente era boa ou ruim e qual função ela deveria cumprir? Será que esse tipo de escola ainda dá pé? Em que medida a Casa do Zezinho se diferencia ou se aproxima dessa escola tradicional?

No próximo tópico Dubet tentará identificar as transformações sofridas pela escola tradicional e os fatores que a levaram, segundo o autor, a tornar-se uma instituição esvaziada.

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