O “Senhor Cem”

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Hoje, vou compartilhar com vocês uma notícia que me causou reflexão: estudiosos descobriram a escrita mais antiga do mundo, usada entre 3200 a.C e 2900 a.C (antes de Cristo). Entalhada em placas de barro, ainda são um mistério e precisam ser traduzidas. O que já se sabe é que descrevem uma sociedade perdida que viveu na Idade do Bronze (3300 a.C), na região que correspondente ao Irã. Ali, trabalhadores escravos viviam à base de mingau de cevada e cerveja aguada na quantidade mínima necessária para trabalhar sem morrer.

Em resumo, há cinco mil anos atrás, o ser humano já escravizava o seu semelhante. Guarde esta informação por um momento.

Lise Kristine é uma fotógrafa americana que passou dois anos documentando a escravidão moderna. Durante 28 anos ela pesquisou as culturas indígenas em 70 países e, segundo ela, “há mais de 27 milhões de pessoas escravizadas no mundo hoje. Esse é o dobro da quantidade de pessoas trazidas da África durante o comércio de escravos feito pelo Atlântico.” Uma família inteira pode ser escravizada, ao custo de 18 dólares, para trabalhar em minas de carvão ou mesmo em fábricas modernas, fazendo tênis ou algum outro produto para nossa “sociedade civilizada”. Você pode não querer enxergar isso, mas agora já sabe.

Segundo os pesquisadores da escrita antiga, os escravos eram tratados como “gado com nomes” e a hierarquia social era na forma de números. O líder era chamado de “Senhor Cem” para indicar o seu status e o número de pessoas abaixo dele. Alguém pensou nos senhores de Engenho? Pois é. Eu conheço muitos “Senhor Cem” atuais. Eles caminham livres e disfarçados por colarinhos brancos, cargos de poder ou armados até os dentes, distribuindo drogas de diversos tipos em pequena ou larga escala. E quando um “Senhor Cem” perde o poder, logo aparece outros noventa e nove na fila pra ocupar o posto. Este é o nosso Admirável Mundo Novo.

Fico pensando o que a sociedade do futuro vai encontrar daqui a cinco mil anos. Ou daqui a cinco. Parece que pessoas do bem como Lise Kristine são uma minoria forte que insiste em mostrar o outro lado desse mundo brilhante e sorridente que vendem todos os dias pra gente. Pior do que o “Senhor Cem” é permanecer “sem noção” e alienado de realidades que estão aqui e agora batendo na nossa porta. Pode ser uma criança tentando vender flores até tarde da noite para casais em bares da moda ou um imigrante peruano que trabalha 16 horas por dia em uma tecelagem clandestina no Bom Retiro (SP). Não importa. O que importa é o que vamos fazer a respeito disso. Se é que vamos.

Além da Copa do Mundo, além das Olímpiadas, além das piadas e vídeos do YouTube e da vida alheia nas Redes Sociais, existe muito que pode ser feito. Eu já estou fazendo e não me considero melhor do que ninguém por isso. Na verdade, me considero sim. Sou melhor que o ‘Senhor Cem”. E acredito que você também pode ser. Te vejo por aqui.

Leia e assista:
Britânicos dizem estar perto de traduzir escrita mais antiga ainda não decifrada
Lisa Kristine – A escravidão moderna

2 comentários sobre “O “Senhor Cem”

  1. Caetano Veloso gravou uma bela canção intitulada “Noites do Norte”, através de versos de um dos mais admiráveis defensores da liberdade aos escravos no Séc. 17 aqui no Brasil (perdoem a fraca memória neste momento) que: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas”, E isso no séc. XVII.

  2. JOAQUIM NABUCO! O autor da poesia “Noites do Norte” é Joaquim Nabuco: uma espécie de Joaquim Barbosa da época, do século XVII. Fui pesquisar.

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