1001 coisas antes de morrer

1001 coisas!

Estava lendo um livro na minha sala quando um Zezinho disparou pela porta: “Tia Dag, roubaram o meu tempo!”, disse quase sem fôlego. Fechei o livro e aguardei o “drama”. As crianças da Casa do Zezinho são tão estimuladas a pensar criativamente que nem fiquei surpresa. “Quem roubou o seu tempo?”, perguntei para entrar no universo lúdico desse menino de oito anos. “Ah, todo mundo!” foi a resposta. E começou a me contar sobre o tempo que leva para estudar, brincar, dormir, comer, tomar banho…

Acalmei o pequeno e sua ansiedade de adulto, exemplo triste da sociedade em que vivemos. Mesmo aqui na Casa do Zezinho, frequentemente temos que harmonizar o relógio biológico das crianças que chegam sobrecarregadas por obrigações das quais não dão conta (e nem deveriam). Muitos cuidam dos irmãos mais novos (entre 2 e 5 anos) enquanto o pai ou a mãe trabalham o dia inteiro. Outros são obrigados a mendigar em faróis tarde da noite ou vender balas e flores sob o medo do castigo de voltar para casa sem nada. Esgotados, alguns nem brincar querem. E olha que brincar na periferia é um luxo, é para poucos.

O problema não é o tempo. É a pressa. Não adianta tentar explicar aos pais sobre o lado esquerdo e direito do cérebro (e suas diferentes funções) ou o valor de entender o tempo da criança porque a maioria também teve sua infância interrompida pelas necessidades de uma vida sem recursos. Mas o que eu acho impressionante mesmo, são as famílias de melhor renda fazerem o mesmo com seus filhos. Criança não é adulto! Impor uma “agenda” cheia de compromissos é porta aberta para o stress infantil e uma série de outros problemas como aumento de peso, perda da autoestima, etc. E nem adianta vir com a desculpa que está “preparando a criança para o futuro”. Essa não cola mais.

Viver em uma sociedade consumista não significa apenas comprar coisas. O que consumimos também nos consome. É preciso desacelerar, entender o ritmo, olhar a paisagem de vez em quando. Na Casa do Zezinho, qualidade de vida (entenda como tempo para crescer) é parte integral do processo de crescimento e aprendizado para que todos entendam seu papel e lugar no mundo. Sabe aquela música do Caetano que diz “eu vi o tempo brincando ao redor daquele menino”? É por aí.

Foi por isso que essa conversa toda terminou com um Zezinho dormindo na minha sala. Deixa ele. Aqui, ele tem todo o tempo do mundo. Até a próxima.

Um comentário sobre “1001 coisas antes de morrer

  1. “És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, tempo, tempo, tempo, tempo, faço um acordo contigo, tempo, tempo, tempo, tempo” (Oração ao Tempo, Caetano Veloso). Tia Dag: sou seu fã!

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