Reality Show!

Realidade

Esse artigo é para quem gosta de ficar vendo esses programas que mostram a “realidade” da convivência.

A região do Parque Santo Antônio, na zona Sul de São Paulo, é considerada uma das mais violentas do mundo pela ONU. Tráfico de drogas, mortes todo fim de semana, falta dos recursos mínimos necessários para viver com dignidade. Sem praças, sem cinema e com apenas um campinho para jogar bola. Este é o cenário. Este é o meio. Quais são os frutos desta condição de miséria e abandono?

Era de se esperar crianças nervosas, retraídas e traumatizadas. Sim, têm muito disso. Era de se esperar que a união dos fatores de exclusão acima, destruísse qualquer sonhar, qualquer horizonte de mudança e transformação no universo de quem já nasce na opressão e na violência. É mais fácil pensar que não tem mais jeito, interna logo, enche de remédio, esquece essa gente. Mas deixa eu te contar uma coisa.

Tudo mundo espera uma chance para brilhar. Todo mundo busca isso de alguma forma. Não estou falando de sucesso, estou falando de reconhecimento. Reconhecimento é como um olhar de novo e ver de outro jeito. Na favela não tem como jogar a “responsa” pra alguém. Não tem como botar a culpa na escola, no psicólogo, na internet. Favela é preto no branco. Ou cuidam de você ou te abandonam à própria sorte.

O último censo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) relatou 3,7 milhões de crianças fora da escola (veja aqui). A grande maioria fica nas ruas ou arruma “bicos” e trabalhos insalubres para levar algum dinheiro pra casa. E nem vou falar do número de adolescentes que ficam grávidas neste período. Só pra completar a cena, quem consegue ir pra escola ainda corre o perigo de sofrer bullying ou vitimização, seja pela condição social, cor da pele, homofobia, escolha religiosa e outras formas de preconceito. O IBGE apontou que dos 60 mil estudantes que cursam o Ensino Fundamental, 30% dos entrevistados sofreram este tipo de violência. São dados de 2009, imagine hoje. Pronto. Esse é o “Reality Show” que eu e todos os educadores da Casa do Zezinho assistem todos os dias.

Lembro de uma frase de um filme que dizia assim: “Chorar não vai parar a bala.” E, quer saber? Não pára mesmo. É fácil se emocionar com tudo isso que escrevi, sentir pena e depois ligar a televisão pra ver novela ou o próximo BBB. Virou moda enxergar a violência pela vitrine nos programas da tarde e nos jornais. Estamos anestesiados pela ideia de que não fazemos parte “dessa gente” e desse mundo selvagem de favelados ignorantes, crianças de nariz escorrendo e adolescentes fumando crack. “Hellooo!” Vamos acordar? Desde 2009, a violência da chamada “classe-média” aumentou em 70%.

Reconhecimento. Identidade. Respeito. Na Casa do Zezinho, não temos um caso de bulying. Os muros são limpos, sem nenhuma pichação, apenas os desenhos das crianças, sua arte. Reduzimos a violência doméstica conversando com os pais e visitando suas casas. Criamos parcerias para colorir essas casas e os poucos espaços de lazer existentes na região. Temos aulas de inglês e alfabetização para adultos em cursos noturnos. Dúvida? Vai lá no site dar uma olhada.

Não, não sou candidata a nada. Mas aceito ajuda de quem se apresentar pela mudança e transformação dessas desigualdades sociais. Eu disse que o universo da favela é preto e branco. É verdade. Mas eu tenho uma fila de projetos esperando por parceiros e gente do bem que deseja “parar a bala” com atitude, trabalho e ação para dar cor e brilho na vida e no futuro “da nossa gente”. Essa é a minha realidade nestes quase 30 anos de trabalho pedagógico. E posso te dizer com orgulho: minha realidade, essa sim, é “show” de verdade. E sem comerciais. Cadê o final feliz que todo mundo promete?

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