Inayá Pereira, Educadora da Casa do Zezinho: Relato de um Zezinho – Como descobrí-los, como entendê-los?

Relato de um Zezinho

O Zezinho entra e sai da minha sala várias vezes. Calado, anda de um lado para o outro.  Chega até janela. Para. Pergunto se ele quer alguma coisa . Me olha e nada responde.  Sai novamente e quando volta senta num canto da sala, quieto.

Continuo o que estou fazendo mas atenta, esperando para ver qual a próxima reação. Nada. Então torno a perguntar se ele precisa de alguma coisa, se posso ajudar. Silêncio total.

Ah, não, Pedagogia do Arco Íris em ação, já! Isso não pode ficar assim…

Peço então que ele venha para mais perto para podermos conversar um pouco. Para minha surpresa, aceitou.

E devagar, intuitivamente, fui  falando sobre coisas que talvez ele me respondesse. E lá fui eu: férias, futebol…

A conversa foi evoluindo, deixando que ele mais falasse (aqui exagero no falasse, pois as respostas eram sim, não, não, muitos “nãos”). Não foi fácil.

De repente uma resposta me salva. Elogiei, disse ter achado lindo o que ele falou e como falou, e se ele permitia que eu escrevesse a frase.

E propus: Vamos escrever o que estamos falando? Tá bacana! Presta atenção, vou digitar e se eu escrever alguma palavra errada, faltar alguma letra,  me corrige. Tudo bem?

Nova postura. Se ajeita na carteira, chega mais perto. Erro de propósito, troco letras,  ele me corrige e vamos nós…

– Olha, não é que está saindo uma história?

A resposta é um leve sorriso.

– O que você acha? Vamos continuar?

Ele concorda. Eu animada arrisco:

– Sabe que essa pode ser a sua história? Vamos continuar?

Ele novamente concorda.

– Tá ficando bonita, não acha?

Agora começo a perceber uma certa inquietação. Está na hora de terminar.

– Pronto, é só dar um finalzinho e nossa história está pronta. Vamos ver como ficou? É isso mesmo que você queria dizer? Você gostou?

Concorda com um gesto.

– Quer ter uma cópia dessa história?

– Não.

E sai…

Meu nome é Daniel Bispo, tenho 13 anos e estudo na Escola Carolina Cintra da Silveira, 8ª série.

Moro com meus pais e tenho uma irmã de 9 anos, Francieli, que estuda na Escola Jorge Andrade e está na 5ª. série.  Como eu, ela também frequenta a Casa do Zezinho no horário contrário da Escola.

O que mais gosto de fazer é esporte, principalmente o futebol. Torço pelo São Paulo, assisto a todos os jogos e acompanho pela internet tudo que acontece com o meu clube de coração.

Sou um bom aluno, mas minha maior dificuldade é a matemática. Na Casa do Zezinho do que mais gosto é a Informática. Quando eu passar para o Século XXI, vou querer participar da Oficina de Web Design. Mas isso só vai acontecer depois do dia 06 de fevereiro de 2014, quando completo 14 anos.

Acho que não me atrapalha, mas sou tímido. Falo pouco, sou bastante observador. Fico mais à vontade quando estou na minha casa ou com algum dos meus amigos mais íntimos.

Meu sonho é ser jogador de futebol porque um jogador de futebol fica famoso e também ganha muito dinheiro. Mas precisa tomar cuidado para que isso não venha a atrapalhar a vida pessoal (vaidade) e também não venha a expor a  família.

Minha maior alegria: quando o São Paulo ganhou o mundial em 2005.

Maior tristeza: não ter conhecido meu avô por parte de mãe. Minha mãe conta que ele esperava meu nascimento com muita alegria, mas não deu tempo…

Sou feliz. Tenho uma vida boa. Meus pais trabalham e não deixam que falte nada na nossa casa. Às vezes levo umas broncas merecidas, principalmente quando brigo com minha irmã.

Fico sozinha na sala e me questiono: Como descobrí-los, como entendê-los?

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