O bem não é ingênuo

Faz-de-conta

“Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.” – Khalil Gibran

A cena não é fácil: diante de mim, uma criança abre uma das mãos e eu posso ver as marcas de queimadura no formato de uma boca de fogão. Um lado meu deseja chamar o responsável por esta agressão, sacudi-lo bastante e chamar a polícia. Acontece que o “responsável” é uma mãe  solteira que sai de casa de madrugada para trabalhar e deixa uma criança de sete anos cuidando de outra de dois. O menor estava brincando, caiu e machucou a testa (nada grave). A “lição” ensinada pela mãe foi deixar uma marca na mão e no coração do próprio filho para sempre. Alguém por aí deseja trocar de lugar comigo? Brincadeira porque eu estou onde quero estar.

Educadores do terceiro setor não trabalham nas condições que muitos acreditam ser ideais. É fácil falar de pena de morte, aumento da pena para menores, normas para proteger um determinado estilo ou qualidade de vida. É fácil julgar o que está longe dos olhos ou enfeitar apenas os resultados finais. Pouca gente conhece o caminho do meio, este contato entre o problema e a solução, entre o desespero e o alívio. Me entristece essa onda atual de que todos somos juízes cheios de razão sobre as causas diversas da falta de educação e da criminalidade, oferecendo soluções rápidas de extermínio e contenção. Eu tenho 1.500 histórias que provam o erro destes argumentos, que revelam a falta de interesse real em construir caminhos e melhores opções para criança e o adolescente. Passe um dia na Casa do Zezinho e venha ver por si mesmo.

Nenhum educador de verdade está alheio as realidades mais difíceis. Educa-dor, olha a palavra e pense nas suas dores, o que elas já fizeram com você e o que já fizeram você fazer. Chamar uma mãe, que leva a vida que eu sei, para tentar interromper o ciclo de violência é apenas um dos desafios que vivemos diariamente. Eu não chamei a polícia, nem o conselho tutelar (fácil demais empurrar e multiplicar o problema). Chamei meus educadores, minha equipe experiente e determinada para ajudar não uma criança mas uma família. Um Arco-Íris não se forma sem chuva e essa foi uma tempestade que, vale dizer, foi superada com dialogo e pedagogia.

Muitos gostam de chamar os defensores dos Direitos Humanos de cegos, ingênuos e sonhadores. Sou sonhadora sim, meus óculos têm sete cores que me fazem enxergar além e a ingenuidade eu deixo para as crianças que precisam dos meus pés bem no chão para continuarem sonhando por uma vida melhor e mais digna. Te vejo por aqui.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.” – Nelson Mandela

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