Ouvir não é escutar

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Abro os olhos e dou uma espreguiçada, acordando para mais um dia como educadora. Sou uma pessoa de muita sorte porque, na maioria das vezes, sou despertada pelo canto dos pássaros que vieram comer as frutas do meu jardim pela manhã. Gosto de levantar cedo e aproveitar o silêncio de uma cidade que ainda não acordou totalmente. É assim que me preparo para um dia cheio de barulhos e sons que não posso evitar, da cacofonia que deseja tirar a minha atenção de uma das funções mais importantes da pedagogia: escutar as pessoas.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a poluição sonora é a terceira mais grave do caráter poluidor, só perdendo para a poluição do ar e da água; esta se agrava reduzindo cada vez mais a qualidade de vida nas cidades. Considerando que o limite tolerável ao ouvido humano é de 55 dB (A), acima disso o nosso organismo sofre de estresse aumentando o risco de doenças, como as cardiovasculares e infecciosas além de associar o estresse crônico aos distúrbios do sono, aumentando a nocividade de ambos.” – Poluição Sonora e Ambiente Urbano, site A Tribuna

Confesso que é difícil. A Casa do Zezinho é um caldeirão de acontecimentos simultâneos com aulas, projetos e oficinas que empolgam as crianças e os adolescentes. É claro que o resultado só pode ser muita conversa, música e uma infinidade de outros sons. Este é um dos motivos da inclusão da Yoga dentro do Projeto Movimento que conta também com dança, capoeira e outros esportes. Separar o que é barulho e ruído, daquilo que precisamos guardar como informação e aprendizado, é mais um desafio de qualquer educador nestes tempos de excesso de conteúdo que mais distrai do que educa. Por isso, precisamos escutar mais.

“Todo sistema sensorial tem um limite mínimo e um limite máximo para responder a um estímulo. A média da população com audição normal é capaz de ouvir sons tão fracos quanto -10 a 0 dB (o som de uma folha caindo de uma árvore é mais forte!…) e tolerar, sem desconforto, sons de 90 dB, desde que por um período curto de tempo. Sons de 130 dB chegam a provocar dor.

Os sons da fala situam-se principalmente entre as freqüências de 250 e 8000 Hz e variam entre 15 e 45 dB de intensidade. Para se ter uma idéia, o som de um torneira gotejando é de aproximadamente 20 dB, de uma conversação tranqüila é de 45-55 dB, o som de um secador de cabelo é de 85 a 90 dB, um caminhão pode chegar a 100 dB, a turbina de um avião é de mais ou menos 130 dB, podendo equivaler ao som de shows de rock!” – A Intensidade Sonora, Portal São Francisco

Boa parte da nossa interatividade social está ligada pelo ato de escutar. Escutar, não ouvir. A criança que não recebe atenção, grita. O adolescente sem assistência vai buscar no barulho e na revolta, formas de ser “ouvido” quando, na verdade, o que mais quer é que sua presença seja valorizada em todos os sentidos. É só olhar para o que está acontecendo no mundo hoje: milhares de vozes nas ruas em busca de uma audiência que ouça de verdade as necessidades coletivas. E, olha que são muitas, viu.

Existe aquela tradição de fazer um minuto de silêncio pelas coisas ou pessoas que perdemos, de honrar essa ausência que valorizamos como sentimento ou presença em nossas vidas. É um minuto de resgate, apenas 60 segundos onde podemos nos reconectar com a sinceridade das nossas intenções. Eu pratico o silêncio antes de uma reunião, uma palestra ou aquela conversa séria que preciso ter quando aparece um problema grave que preciso resolver. A diferença é enorme.

Escutar é silenciar o coração, exercitar o foco na necessidade do outro de se expressar sem sobrepor a palavra e a fala. Precisamos de um mundo que grite menos para que possa se escutar mais no caminho para o desenvolvimento e aprendizado saudável. Vamos abaixar o volume um pouquinho e aumentar nossa consciência? Te vejo (e escuto) por aqui.

“Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.” – Arthur Schopenhauer

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