Uma construção de seres humanos

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Uma mão torce os dedinhos da outra. Os olhos buscam um ponto qualquer no teto ou no chão para não se cruzarem com os meus. Os joelhos estão voltado para dentro. A linguagem corporal é clara para quem já viu a mesma cena mais de um milhão de vezes: essa criança está com medo e vai mentir para mim.

O “delito” não é nada demais. Brigou na sala de aula pelo motivo banal de querer ser o primeiro a usar o computador. Mas essa criança não sabe disso. Ela está acostumada ao castigo pelos menores motivos. Ela acredita que não existe espaço para ser ouvida (como acontece em casa), acredita que merece a punição porque, oras, ela não presta pra nada com apenas oito anos. É o que a mãe diz sempre quando ela apronta. É o que os outros dizem. É por isso que seu pai foi embora e ele nunca o conheceu. Ela deve ser a culpada.

Este é um “mix” do que pode estar por trás de cada Zezinho que aparece por aqui. Uma identidade forjada na base do castigo e da falta de voz própria. Uma infância carregada de faltas e penalidades que nunca foram bem explicadas, que são porque são e pronto. Na favela, uma criança de seis anos já sabe lavar roupa, ligar o fogão, esquentar a mamadeira pro outro irmão de três anos. Mas não sabe o que é adormecer no colo da mãe ou o cheiro do perfume que viu no comercial da televisão do vizinho. Não é uma criança criada. É uma criança desconstruída, da mesma forma que seus antecessores (vulgos, pai e mães).

Uma construção começa pela base e os alicerces (aquilo que segura e garante a firmeza) do que vem pela frente ou, no caso, o que vai ser colocado em cima. Presta atenção nisso: em cima. Em cima de cada Zezinho. Uma pilha de sentimentos de rejeição, falta disso e daquilo, falta de educação, saneamento e carinho. Falta de falta. Se falta para os pais, falta para os filhos. Você já pensou, por exemplo, o que significa passar quase toda infância sem luz a noite? Já imaginou o que isso representa para percepção da criança e seu entendimento do mundo? E a falta de água? E do sabão? Que tal a falta de espaço e ter que dormir com mais outros quatro? Ah, educar é fácil, é só ensinar a ler e escrever…acho que não.

A minha pedagogia é a dos sentidos, não da fôrma. Fôrma não é forma e criança não é pãozinho para ser educada como em uma linha de produção. Para que a criança lá do começo acredite em mim e olhe nos meus olhos, sou eu quem precisa se abaixar, ficar na altura dela, entrar no mundo dela. Sou eu quem cria a ponte, é o educador quem precisa construir a relação. Já passou muita gente por aqui, diploma na mão, e mandei embora. Trouxe o diploma mas não trouxe o coração. Trouxe o conhecimento mas esqueceu do “entendimento”, o olhar para sacar que cada criança é única no seu jeito de assimilar o que acontece com todos. Única. Diferente. Individual. Pessoal. Ser humano.

Educar é construir relações, laços de amor e entendimento. Pense nisso. Te vejo por aqui.

“Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.” – Confúcio

Um comentário sobre “Uma construção de seres humanos

  1. Tia Dag a cada postagem sua te admiro mais, seu trabalho é lindo, contagia, você é uma guerreira, tenho aprendido muito com você, fico muito feliz em ter tido a oportunidade de conhecer você.

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