A criança é um sujeito ativo e deve ser escutada

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A atividade da escuta não é algo fácil de praticar, ainda mais quando o interlocutor em questão é uma criança. Considerada um dos grandes desafios na Educação Infantil, encarar o aluno que tem menos de 6 anos como um sujeito ativo, protagonista de sua própria trajetória é fundamental para a construção de um modelo de escola emancipatória. É essa lógica de autonomia dos alunos que educadores de uma pequena cidade italiana de Reggio Emilia, no norte do país, usam para explicar parte do êxito do seu reconhecido projeto de educação, criado em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, e que hoje serve de referência a vários países de todo o mundo.

A busca por estimular as crianças a usarem todas as suas maneiras de expressão, não apenas a fala e a escrita, mas gestos e olhares, por exemplo, é um das características mais marcantes das creches e pré-escolas da pequena cidade italiana. “O nosso objetivo é instigar o desejo da criança. Executamos um trabalho diário que não é fácil. Seria mais cômodo ficarmos em frente à sala de aula e pedirmos para elas fazerem alguma atividade isolada. Fazemos diferente, buscamos escutar todas as crianças, algo que não é simples”, afirma Iride Sassi, professora de artes em Reggio Emilia, e uma das convidadas para o Seminário Internacional o Pensamento da Infância e a linguagem gráfica: descobertas em diálogo com Reggio Emilia, que acontece hoje e amanhã, em São Paulo.

Além da atenção individual concedida a cada criança – algo proporcionado pela presença de duas professoras por sala –, a participação dos pais na escola é outro ponto bem marcante. “Para que o processo seja conduzido da melhor maneira precisamos do envolvimento dos pais. A escola é o lugar onde adultos e crianças crescem juntos. Nos interessa muito esse processo de troca entre pai e filho e entre pai e escola”, fala Deanna Margini, outra educadora de Reggio Emilia, também convidada para o seminário.

Mas todos esses pontos só foram possíveis de serem perseguidos e colocados na ordem do dia por uma luta “incessante” pela melhoria no sistema de ensino como um todo. “É preciso buscar cada vez mais a qualidade. A escola precisa estar sempre bonita, bem cuidada, acessível, aberta a todos e sempre buscando uma reflexão dos seus métodos e processos”, explica Iride. Outro ponto interessante é que lá em Reggio Emilia, grande parte das atividades com alunos – quase sempre baseadas em projetos e realizadas em grupos –, também são registradas e documentadas. “Gravamos as atividades para que depois possam ser revistas e discutidas, para que sejam melhor aperfeiçoadas”, diz Iride.

Com um projeto sólido de educação, não falta interesse na utilização da metodologia em outras escolas, inclusive no Brasil. Algo que melhoraria o quadro de educação no país, segundo Marília Dourado, representante da RedSolare Brasil, entidade sem fins lucrativos que difunde as práticas da abordagem reggiana. “A sociedade brasileira clama por uma educação de qualidade. Nós temos muitos bons discursos, belos documentos, mas nem sempre somos capazes implementá-los no cotidiano. Por isso, que pretendemos incentivar a abordagem em algumas instituições públicas e privadas brasileiras”, diz Marília.

Para melhor entender alguns dos princípios que sustentam a abordagem reggiana, leia algumas frases que listadas a seguir:

Protagonismo

“Uns acreditam que o critério mais importante é o de resultados, para nós, são os processos, principalmente o da escuta. Isso tem mais valor”

Deanna Margini
Reggio Emilia

“A criança é um sujeito ativo que deve ser escutado. Temos que tentar a todo custo assegurar essa escuta”

Iride Sassi
Reggio Emilia

“A criança deve ser vista como única e singular, e como um sujeito ativo que tem possibilidade de ir mais além, nas mais diferentes linguagens. É justamente aí que está a beleza da vida”

Marília Dourado
Redsolares

Direito à educação

“A escola como um direito é uma afirmação que não pode ser vista como um objetivo-fim. Ela deve servir sempre como estímulo a ser alcançado”
Deanna Margini
Reggio Emilia

Autonomia

“Com 5 anos de idade, é mais importante que o aluno seja autônomo, tenha uma boa autoestima, saiba estar com o outro e possa amarrar o próprio cadarço do sapato, do que qualquer tipo de conhecimento formal”
Iride Sassi
Reggio Emilia

Participação dos pais

“A escola deve sempre está pronta a acolher os pais. Isso deve ser uma constante. Mas sabemos que a troca nem sempre é fácil”
Iride Sassi
Reggio Emilia

“Propor uma coesão social dentro da escola e se aproximar da comunidade devem ser objetivos a serem perseguidos. Os bons resultados só acontecem quando há um pacto local pela educação”
Deanna Margini
Reggio Emilia

“Assim como apregoa a abordagem em Reggio Emilia, a família deve se reconhecer parte da escola e estar sempre presente nela, opinando, tomando decisões. Os pais devem assumir essa responsabilidade de participar da história dos filhos”
Marília Dourado
Redsolares

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