Preste atenção em mim

crédito: discoverykidsbrasil.uol.com.br

Minha neta quer fazer um bolo. Ela pega na minha mão e me arrasta até a cozinha, sem se importar com qualquer assunto, conversa ou estudo com o qual eu esteja lidando. Minha neta quer fazer um bolo. E me escolheu para estar ao seu lado. Por que isso é tão importante?

As melhores filosofias de vida inventadas pelo ser humano, falam da atenção como ferramenta para entender o mundo e a si mesmo. Temos a atenção pelo corpo na nutrição correta, pela mente na meditação, pelo espírito na oração e por aí vai. Atenção vem do latim Attendere que, literalmente, quer dizer “esticar-se para”. A definição na Wikipedia ajuda mais ainda:

“Atenção é um processo cognitivo pelo qual o intelecto focaliza e seleciona estímulos, estabelecendo relação entre eles. A todo instante recebemos estímulos, provenientes das mais diversas fontes, porém só atendemos a alguns deles, pois não seria possível e necessário responder a todos. É um processo de extrema importância em determinadas áreas, como na educação, já que se exige, por exemplo, a um aluno que preste atenção às matérias lecionadas pelo professor, ignorando estímulos visuais, sonoros ou outros, como o que se está a passar fora da sala de aula (estando, neste caso, relacionado também com o problema da disciplina). Além da atenção concentrada, em que se seleciona e processa apenas um estímulo, também pode existir atenção dividida, em que são selecionados e processados diversos estímulos simultaneamente – como quando se conduz um automóvel e se ouvem as notícias do rádio simultaneamente.

Para que a atenção atue são necessários três fatores básicos:

  • Fator fisiológico, onde depende de condições neurológicas e também da situação contextual em que o indivíduo se encontra;
  • Fator motivacional: depende da forma como o estímulo se apresenta e provoca interesse;
  • Concentração: depende do grau de solicitação e atuação do estímulo, levando a uma melhor focalização da fonte de estímulo.

Quanto a fonte de estímulo podemos ter estímulo visual, auditivo e sinestésico.”

Certo, mas isso é papo de educador porque minha neta não sabe nada disso, crianças não sabem disso. O que nossas crianças aprendem, intuitivamente e desde cedo, é perceber quem “se estica” por elas, quem corresponde aos seus anseios de presença compartilhada. O bolo que fiz com a minha neta foi de mentirinha, cheia de ingredientes imaginários, na cozinha de brinquedo dela. O real foi a troca verdadeira de afeto e carinho. E o mais importante: ela me escolheu. Tinha mais gente por ali mas a conexão precisava ser comigo. Foi uma escolha individual e amorosa que muitos perdem por não prestarem a devida atenção, não se esticarem na direção certa, na direção da criança. O mais interessante é que essa mesma necessidade de atenção retorna na terceira idade, quando precisamos nos sentir mais seguros no ambiente que nos cerca.

Para criança, atenção é amor (e para mim também). Para o idoso, atenção é cuidado (e para mim também). Vivemos na corda bamba da vida moderna, cheia de dispositivos e urgências para nos distrair, cheia de compromissos que sempre são “tão importantes”. O tempo gasto em lidar com a falta de tempo, pensando como o dia que deveria ter mais de 24 horas, nos afasta da atenção mágica do universo de nosso filhos, netos, etc. Estamos nos esticando para o lado errado.

Adoraria escrever sobre Piaget e o desenvolvimento humano agora mas deixaria este papo longo demais (educadores, olhem a lição de casa nos links). Só fiquem sabendo que o “bolo de nuvens com morango e chocolate” que a minha neta fez comigo estava delicioso.

Voltei para minhas tarefas e deveres com mais sabor pela vida e pelo que faço. Voltei prestando mais atenção em mim e o quanto sou responsável por essa troca que me torna mais o que quero ser do que qualquer cargo ou título pelo qual sou conhecida. Deve ser isso que o amor faz com a gente. Quando prestamos atenção. Te vejo por aqui.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” – A. S. Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”

Para educadores (e quem se interessar):

O DESENVOLVIMENTO HUMANO NA TEORIA DE PIAGET
Márcia Regina Terra
 O CÉREBRO NOSSO DE CADA DIA – ATENÇÃO
Suzana Herculano-Houzel e equipe

Um comentário sobre “Preste atenção em mim

  1. Muitos já se dão conta da energia gasta de procurar o tempo que não se tem! Na minha opinião você relatou tudo: Devemos nos esticar para aquilo que realmente é prioridade, por exemplo: Voltar os olhos,ouvido, mente e corpo, ou seja estar presente num relacionamento que nos enriqueça! Isso é parar para ganhar tempo! Parabéns! Sua dica foi ótima!

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