Gravidez na adolescência: a cada 18 minutos, uma menina de 10 a 14 anos dá à luz uma criança, no Brasil

(publicado originalmente no portal da globo.com em 02 de setembro de 2009)

No último episódio da Liga, Lourdes e Stephanie foram à Casa do Adolescente, instituição que oferece ajuda a jovens e famílias para casos de gravidez, doenças, alimentação e etc. Stephanie participou de uma oficina só de mulheres que passaram pela mesma experiência que ela e desabafou. Os números no Brasil são assustadores, portanto, para nos aprofundarmos no assunto, conversamos com a coordenadora da Casa do Adolescente, Dra. Albertina Duarte. As informações são essenciais para todos os pais e filhos!

Para ver os endereços e telefones da Casa do Adolescente, que é um programa da Secretaria de Estado da Saúde em parceria com as prefeituras de São Paulo, clique aquiCASA DO ADOLESCENTE.

Com que idade os jovens de hoje dão início à vida sexual? Como comparar essa geração com a anterior, quer dizer, como os pais desses jovens se comportavam sexualmente quando eram jovens?

As estatísticas mostram que a idade do início da atividade sexual ocorre entre 14 e 17 anos. Temos, porém, que a primeira relação amorosa está acontecendo antes dos 14, isto é, o primeiro desejo, o primeiro encantamento. Hoje, ser BV – boca virgem – aos 14 anos pode ser um fator de discriminação ou de insegurança entre os adolescentes. Em relação à atividade sexual, não é só precoce a idade cronológica, mas também é precoce o tempo de relacionamento. Desde os anos 90 as pesquisas apontam que o relacionamento sexual faz parte do namoro, portanto houve uma mudança. A atividade sexual que antes se iniciava com profissionais do sexo, hoje acontece com o namorado, amigos ou conhecidos, o que gera mais insegurança. Os pais de antigamente tinham relações com profissionais do sexo, de forma clandestina, sem conhecimento dos pais, e o homem era aprovado na sua atuação sexual. A mulher era mantida culturalmente virgem.

A gravidez na adolescência está aumentando ou diminuindo?

A gravidez na adolescência desde 98 vem aumentando no mundo e, no Brasil, houve um aumento de 7,8%: passou de 515 mil para 533 mil mães adolescentes. Já em São Paulo nós tivemos uma diminuição de 34% – de 148 mil para 96 mil. É importante lembrar que a gravidez na adolescência de 10 a 14 anos passou no Brasil de 16.000 para 22.000, sendo que o aumento concentrou-se em regiões do Norte e Nordeste. Isso representa no Brasil que, a cada 18 minutos, uma menina de 10 a 14 anos dá à luz uma criança. Uma por minuto, no Brasil, dá à luz entre 10 e 20 anos. O Estado de São Paulo tem o menor índice de gravidez na adolescência, mas o número é de uma a cada 5 minutos, de 10 a 20 anos. É importante lembrar que a gravidez na adolescência se repete porque 40% das adolescentes volta a engravidar dois anos depois.

Se os jovens têm acesso à informação, por que ocorrem ainda tantos casos de gravidez? A própria Stephanie diz que usou preservativo e engravidou mesmo assim… Isso é possível?

Todas as pesquisas apontam que cada vez mais os adolescentes têm informação. A informação não garante a mudança de comportamento. A insegurança dificulta a negociação com o parceiro para o uso do preservativo. As pesquisas feitas junto com a OMS – Organização Mundial da Saúde – mostraram que a menina tem insegurança e medo de não agradar o parceiro e o menino tem medo de falhar. A situação de medo e insegurança, aliada ao pouco tempo de vínculo com o parceiro, dificulta a possibilidade de diálogo entre eles. Mais de 90 dos adolescentes conhecem os preservativos e algum método anticoncepcional e 30% usam esses métodos nas primeiras relações sexuais. O uso do preservativo aumentou entre os jovens mas eles deixam de usá-lo conforme aumenta o tempo de relacionamento. O adolescente tem um tempo diferente do tempo do adulto. Muito tempo pode ser dois meses. Como prova de carinho ou de fidelidade, o adolescente pode deixar de usar o preservativo ou algumas vezes usar e outras não. O que pode levar a uma gravidez é a adolescente ter duas relações na mesma noite ou dia e usar o preservativo em uma só.

Existe um perfil de jovem que engravida cedo? Está relacionado a que fatores?

O perfil da adolescente que engravida é idade entre 15 e 17 anos, que tem mais insegurança, menos autoestima. Adolescentes filhas de mães adolescentes engravidam mais, filhas de pais separados e adolescentes que têm poucos amigos e não se sentem aceitas na escola, mas principalmente adolescentes que depositam no parceiro toda a necessidade de aprovação, aceitação. Adolescentes que dizem: “Só ele me entende, só ele sabe o que sinto. Ele é o meu número, só penso nele. Sem ele não vivo.” A adolescente que tem pouca inserção em grupos, que não tem diversidade de opções de atividades, que não consegue fazer uma rede e fica algemada ao parceiro. Quando ela tem um grupo da escola, do esporte, de dança ou teatro, ela tem vários movimentos de discussão e trânsito. Vai desenvolvendo o seu juízo crítico, sua capacidade de negociação. Essa é a rede que protege a adolescente. Aquela que só tem um amigo ou namorado, fica presa e corre riscos.

E as DSTs? Estão aumentando? Os jovens têm consciência do perigo?

As doenças sexualmente transmissíveis – DST – estão aumentando, principalmente o HPV. Metade dos casos novos de AIDS no mundo ocorre entre os jovens. Hoje há o aumento das DSTs e o retorno da gonorreia e da sífilis, que aparentemente estavam controladas. Faz parte das características da adolescência o desafio, a questão mágica: “Não vai acontecer comigo”. Saber que é possível ter DST nas relações sexuais já é parte do conhecimento dos jovens, mas crer que seu parceiro pode transmitir não faz parte do universo do adolescente. “O meu parceiro é limpinho e cheiroso. Jamais faria isso comigo”. “Ela, não. Como é possível?” Os jovens têm consciência do perigo nos outros. Eles não acham que eles mesmos correm perigo. Por isso há necessidade de um processo de conscientização que modifique esse comportamento.

Toda gravidez na adolescência é “indesejada” ou existem muitas jovens que engravidam de propósito? Por quê?

É preciso discutir o que é desejo. Muitas adolescentes dizem que desejaram a gravidez num processo de desafio. Quando você pergunta se elas desejam que suas filhas fiquem grávidas na adolescência, elas respondem “De jeito nenhum, quero que engravidem aos 25, 30, porque é muito duro ficar grávida na adolescência”. O que é engravidar de propósito? É muitas vezes não ter opções, um leque de opções para escolher. Então “de propósito” vira “sem querer”, um “acidente”. A gravidez é muito séria para acontecer de forma inesperada. Por isso, mesmo que as adolescentes digam eu quis, eu desejei, é preciso refletir sobre por que as adolescentes desejaram engravidar tão cedo. Desejar algo envolve conhecimento e muitas vezes o conhecimento da gravidez é superficial e mágico. A maior parte das adolescentes dizem depois que não sabiam “como era difícil cuidar de uma criança”.

Quais são as consequências emocionais nos jovens pais e mães?

Os jovens pais e mães passam rapidamente da situação de adolescentes, que ainda estão sendo cuidados pela família, para cuidadores de uma criança. As estatísticas mostram que mais da metade das jovens são abandonadas pelo parceiro ainda na gravidez. A adolescente fica insegura e se sente muitas vezes rejeitada, pode perder seu grupo de amigos e tem dificuldade de retornar à escola. O conto de fadas com o namorado e a criança se desfaz. Tudo é muito rápido para que ela possa arrumar uma casa e viver junto com a criança e o namorado. Geralmente ela mora com a mãe ou com os sogros, caso ela fique com o parceiro. Ou tem a ilusão de que ele vai trabalhar para arrumar uma casa. A realidade mostra que em 70% dos casos quem assume a gravidez é a família da menina, o que gera cobranças e conflitos. O menino não está socialmente preparado para assumir a gravidez, ele é poupado e, se economicamente não tem condições, ele pode ser excluído. É difícil para os jovens, agora pais, conciliar cuidar deles e do bebê. Eles necessitam de ajuda.

Qual o perigo de uma segunda gravidez na adolescência? Qual o percentual de meninas adolescentes que engravidam uma vez e acabam engravidando de novo ainda muito jovens? Por que isso acontece?

A segunda gravidez na adolescência acontece em torno de dois anos depois da primeira. Se não for feito um trabalho com essa jovem, os números mostram que 40% voltam a engravidar. Existe o mito de que quem engravida na adolescência aprende a lição, mas nós sabemos que as adolescentes que engravidam ficam mais frágeis, mais inseguras, com baixa autoestima e muitas vezes uma imagem corporal negativa. E se ainda têm um mau relacionamento com o parceiro, elas ficam vulneráveis em um novo relacionamento. Com dificuldades elas tomarão a atitude de se prevenir de uma segunda gravidez. Se o novo namorado se mostrar afetivo e cuidador da criança do outro relacionamento, pode haver um movimento de dar também a ele um filho já que ele cuida do filho do outro. Se há idas e vindas do parceiro antigo, ela não está preparada para se prevenir. A segunda gravidez, portanto, pode acontecer em 60% dos casos com o novo parceiro, mas com menos apoio familiar e com o rótulo “é o destino”. Dificilmente volta para a escola e sua única opção será ser mãe.

Em geral, como reagem os pais das adolescentes grávidas? Existe um trabalho também com a família na Casa do Adolescente?

Houve uma mudança: os pais hoje raramente expulsam as filhas de casa. Num primeiro momento ficam bravos, criticam e, depois, mantêm uma cobrança contínua. Apesar dos pais hoje “aceitarem” isso não garante que os pais sejam parceiros nessa gravidez. O trabalho que é feito na Casa do Adolescente com a família é justamente discutir o processo de gravidez na adolescência, como será esse apoio, preparar os pais para que eles não culpem e cobrem os adolescentes, mas que ajudem nessa fase. É discutida a importância de voltar à escola, de facilitar que os adolescentes tenham um grupo de amigos, possam fazer atividades, dividam as tarefas e não fiquem o tempo todo sendo rotulados. Isto vai fazer com que a adolescente se sinta segura, possa exercer suas atividades de mãe, previna uma segunda gravidez e possa se relacionar com ela e com o mundo numa perspectiva de um futuro feliz.

Qual o problema mais frequente do jovem que procura a Casa do Adolescente? Quais os serviços que a Casa oferece para ajudá-los?

Os problemas são emocionais, odontológicos, de relacionamento com a família, sexualidade e gravidez. A Casa do Adolescente oferece atendimento às necessidades. Há uma equipe multiprofissional com psicólogos, dentistas, médicos clínicos, ginecologistas, urologistas, médicos de família, nutricionistas. A Casa faz atendimento individual e faz trabalho em grupos com os adolescentes, como oficina dos sentimentos, grupos de família, oficina de nutrição, teatro, dança, artesanato e há o plantão das emoções. Há também a Balada da Saúde, que é um serviço oferecido à noite para que os adolescentes possam ser atendidos fora dos horários de trabalho ou escola. Há todo um incentivo de trabalhos com a família, grupos de mães e pais adolescentes, distribuição gratuita de anticoncepcionais, remédios e vacinas. Tudo é gratuito: do atendimento aos remédios e vacinas.

Na sua opinião, os problemas dos adolescentes são causados mais por fatores externos, como a sociedade e o meio, ou mais por fatores pessoais e familiares?

A sociedade gera uma cultura de desafios para o adolescente em relação ao mundo adulto. Se a sociedade que impõe esses desafios e riscos não gera uma rede de proteção, estímulos e perspectivas, os adolescentes se sentirão abandonados e as famílias sozinhas não poderão enfrentar as situações de conflitos. Os adolescentes são vítimas e não culpados pelo mundo em que vivem. Eles podem ter uma grande força de mudança. Para isso é preciso gerar uma cultura de acolhimento e participação. Se os adolescentes têm tendência grupal e gostam de viver em grupo, cabe à sociedade, ao país, estimular serviços, leis, espaços que possam acolher, atender e promover a participação dos adolescentes.

Que conselhos você dá para os pais que têm problemas de relação com seus filhos adolescentes?

Os pais precisam exercer cada vez mais a linguagem do afeto. Olhar nos olhos, mostrar que amam seus filhos. Dar receitas do que não pode acaba afastando os adolescentes. Eles não querem mais ouvir falar, por exemplo, de camisinha e DST. Eles acham que já sabem tudo. Os pais têm hoje que ser sensíveis, falar mais do cotidiano, exercer atividades prazerosas com os adolescentes, ter atividades conjuntas, como caminhar, cozinhar junto, ler o jornal juntos uma vez por semana. Hoje os pais conversam com os filhos para criticar. E os filhos já esperam isso e já se fecham para qualquer entendimento. Fazer rituais como o almoço do domingo, o futebol, uma caminhada semanal, mexer no jardim e ler jornal promovem intimidade e é o aquecimento para possíveis conversas. Favorece o estabelecimento de limites, tarefas conjuntas e de disciplina. Mais do que discursos, as ações e gestos mostram parceria e integração. O adolescente vai aprender no ritual da família a respeitar os rituais dos outros grupos.

 

FONTE: http://fantastico.globo.com/platb/ligadasmulheres/2009/09/02/gravidez-na-adolescencia-a-cada-18-minutos-uma-menina-de-10-a-14-anos-da-a-luz-uma-crianca-no-brasil/

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