[Entrevista] Primeiras Grafiteiras do Afeganistão tentam ofuscar a Guerra com Arte

O Afeganistão é cenário das piores manchetes de violência e devastação divulgadas nos últimos anos, essa pode ser a imagem que temos, mas não é a única. Cansados dessa fama, aos poucos surge uma juventude com o desejo de revolução, dentre eles, duas garotas com o sonho de um dia cobrir os sinais da guerra nas ruas com arte.

Shamsia Hassani e Malina Suliman são as primeiras mulheres grafiteiras no Afeganistão, com estilos diferentes usam a arte urbana para encorajar mulheres afegãs a lutarem pelos seus interesses e exigirem igualdade na sociedade islâmica. Ambas dão workshops para formar novos artistas e apoiam projetos que visam popularizar o acesso a arte contemporânea no país.

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Malina Suliman tem 23 anos e formada em Realism Art no Paquistão. Ela é pintora, escultora, grafiteira e professora. Com um estilo mais ousado costumava sair à noite escondida para grafitar mensagens com criticas política pelas ruas de Kandahar. Malina já sofreu ameaças do Taliban e após o seu pai ser agredido na rua teve que se refugiar na Índia por alguns meses. Hoje, de volta ao seu país, ainda se arrisca com spray nas ruas e atualmente prepara uma exposição solo.

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Shamsia Hassani tem 24 anos e formada em Fine Arts na Universidade de Cabul. Ela é artista digital, professora e a primeira grafiteira do Afeganistão. Suas criações retratam mulheres usando burcas com uma postura forte e feminina sob a crítica de que para uma mulher afegã, ser livre é muito além do que ter ou não ter que vestir uma burca.

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Seu primeiro contato com o grafite foi em 2010, em um workshop oferecido pelo artista inglês CHU e organizado pela Combat Communications em Cabul. Na época, fazia pinturas em telas e se fascinou pela a ideia de produzir algo acessível às pessoas e capaz de colorir uma cidade devastada pela guerra.

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“As mulheres e as vítimas da guerra são como peixes mortos em um rio, flutuando sem rumo enquanto o resto da sociedade flui” – Shamsia Hassani

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“As bolhas simbolizam as palavras que elas querem dizer mas não o fazem, porque em Afeganistão não lhes dão voz” – Shamsia Hassani

Por questão de segurança, Shamsia só faz intervenções em lugares fechados e abandonados ou onde é convidada. Além do risco de ataques, extremistas costumam apedrejar ou jogar ácido em mulheres nas ruas.  Em épocas de poucos convites ela realiza intervenções digitalmente, para uma série chamada “Dreaming Graffiti” que reúne os grafites que gostaria de fazer no seu país.

 Série “Dreaming Graffite”

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Seu trabalho tem ganhado notoriedade e já foi convidada para grafitar na Alemanha, Índia, Austrália, Suíça e Vietnã onde colaborou com o americano El Mac em um mural em homenagem a ela.

Mural Shamsia e El Mac

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Conversamos com Shamsia sobre o seu trabalho e os planos para o futuro. Confere ae!

– Você está engajada em popularizar o grafite no Afeganistão. Como é abraçar essa causa em um país onde a arte urbana ainda está engatinhando?

Shamsia: É muito difícil! Como em toda revolução, eu também lido com todo tipo de empecilho, mas enquanto houver interessados, vale a pena permanecer forte. Eu tenho um objetivo valioso e a arte é uma forma amigável de lutar.  Eu acredito em mim e acredito na arte.

– Nos seus trabalhos você sempre faz uma conexão entre o lado bom e o lado ruim de ser uma mulher afegã, Qual é a mensagem que você quer passar para elas?

Shamsia: Pra mim é importante mostrar os problemas e as dificuldades das mulheres afegãs, mas ao mesmo tempo eu quero mostrar o lado positivo e representa-las felizes também. É verdade que 90% da vida delas é problema, mas os outros 10% são como um resquício de luz  brilhando na escuridão, então 10% pode não ser muito mas já é alguma coisa…e um pouco é o suficiente para quebrar a escuridão, então vamos ser essa luz!

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– Como as mulheres afegãs em geral correspondem ao seu trabalho?

Shamsia: Algumas aprovam e me procuram querendo aprender a grafitar e outras não gostam e acham que estou sujando as paredes.

– No que você está trabalhando atualmente?

Shamsia: Estou preparando um workshop de grafite para os estudantes de Fine Arts, esse ano eu pretendo organizar um Festival de Graffiti em Cabul. Esse mês eu vou para Dinamarca e em Outubro para os Estados Unidos, irei grafitar e divulgar o lado positivo do Afeganistão.

– O que você espera alcançar como o artista?

Shamsia: Eu quero mostrar o significado de paz e liberdade, quero apresentar a arte para as pessoas por meio do graffiti e fazer uma cidade colorida esquecer as lembranças da guerra. Também quero comunicar minha luta pelos direitos das mulheres com formas, pois uma imagem pode comunicar mais que uma palavra.

Shamsia Hassani
Malina Suliman

FONTE: http://misturaurbana.com/2013/09/entrevista-primeiras-grafiteiras-do-afeganistao-tentam-ofuscar-a-guerra-com-arte/

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