A lista de doações

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A enfermeira olha para o médico com um ar de preocupação. Na sala de espera, os pais apertam as mãos, os parentes rezam e o suspense aumenta quando o telefone toca no escritório do diretor do hospital. O pedido foi negado. O coração não vai chegar e o garoto na mesa de cirurgia vai ter que esperar, Deus Sabe, quanto tempo.

Essa é a minha insônia que resolve ficar assistindo filmes no meio da madrugada, melhor horário para reflexão do que afeta a gente e o que (ou quem) nós afetamos.

Sei bem o que é esperar. E, como a maioria, detesto esperar. Aliás, detesto mais que a maioria. Sou do movimento e da ação, do fazer agora. Meus educadores sofrem com esse agito de urgência permanente que eu estabeleço para Casa do Zezinho. Eu sei, uma parte minha sofre também. Mas o tempo é mais curto do que pensamos. E estamos na lista de espera do desenvolvimento.

Uma pesquisa recente provou que somente 13% dos moradores de rua são analfabetos, 65% não bebem e 62% não usam drogas (veja aqui). O Brasil tem 60 milhões de crianças e adolescentes com 30 milhões vivendo em estado de pobreza. Sabia que aproximadamente 30 mil pessoas aguardam na fila de espera e, de cada 10 pessoas abordadas, quatro se recusam a doar os órgãos de seus familiares? Este é o país da próxima Copa, gente. O país que tem a sétima maior economia do mundo. O país da fila de espera para tudo.

Não é fácil falar isso como pessoa pública. Não é fácil falar isso como brasileira. Mas sou educadora, sou presidente de uma Ong e tenho responsabilidades com meus educadores, meus parceiros, minha consciência e minhas crianças. E eu quero tudo o que você quer. Quero paz, saneamento básico, comida na mesa e emprego. O Natal já está chegando, quero felicidade e saúde, quero minha casa cheia de alegria, distribuída em cada sorriso de um Zezinho que passar por mim.

Minha lista de desejos (e doações) é bem grande.

Como o menino na mesa de cirurgia, eu também quero mais corações. Quero braços, quero pernas, quero gente correndo para fazer o bem, gente se doando sem fazer alarde disso, de verdade, porque tem essa fome e essa mesma vontade de mudança que me motiva. Quero diminuir a fila, encurtar a distância, ir pro abraço. Quero dormir sabendo que fiz do meu dia, o mais produtivo possível por aquilo que defendo.

Pô…quero muita coisa e mais.

Olha o que uma insônia faz. Prometo que tomo um tranquilizante da próxima vez. Ou não. Beijos e te vejo por aqui.

“A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão.”

Paulo Freire

Para quem se interessar:

Estudo mostra que maioria da população de rua não bebe nem usa drogas
Doação de Órgãos: Tudo o que você precisa saber
Como vivem as crianças brasileiras

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