A culpa não é dos jovens

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Há poucos dias foram divulgados os resultados das provas do ENEM 2014, aplicadas para um total de 6,2 milhões de estudantes: 529 mil tiraram zero em redação, enquanto apenas 250 estudantes tiveram nota máxima. Em 2013, foram 106 mil os que não pontuaram, de um total de 5 milhões de inscritos. A nota média da redação teve uma queda de 9,7%, de 2013 pra 2014. O tema da redação esse ano foi “Ética na propaganda infantil”. Em 2013, “Lei Seca”.

Assim que essas informações foram divulgadas, surgiram diversas explicações dos “especialistas”: o problema é o sistema de educação; o ensino das escolas que é fraco; os alunos não se empenham; o tema não é “popular”.

Algumas observações são importantes para entendermos esse cenário. Primeiro, devemos entender a evolução do processo educacional. O século XIX foi o da escola da era industrial. Já no século XX, o grande professor foi a televisão, que era a maior fonte da informação, chegando a quase todos os lares, onde era colocada, muitas vezes, no centro da sala. E o século XXI é do aluno, onde ele pode buscar informação em diferentes fontes, não existe mais o “dono” do saber. E é nessa busca que mora o problema: as referências, que influenciam os alunos, fazem um uso totalmente errôneo do português.

Alguns exemplos que ilustram o assassinato da língua pátria, encontramos em expressões ditas por editores, jornalistas, apresentadores, pais, e formadores de opinião, em geral:

  • “Presidenta”, ao invés de “presidente”;
  • “A nível de Brasil”: uso errôneo da palavra “nível”. O uso correto é, por exemplo: “nível do mar”, “nível da caixa d’água”;
  • “Pra mim fazer”, ao invés de “pra eu fazer”. Mim não faz nada, eu faço;
  • “Comercializar” ao invés de “vender”;
  • Ao invés de “arma”, escrevem “armamento”;
  • “Colocar” o sapato, não “vestir” o sapato;
  • “Gerundiar”: encontramos muitos exemplos em qualquer call center: “estarei agendando”, ao invés de usar do verbo no futuro, “agendarei”;
  • Esqueceram quais são os verbos auxiliares: ser, estar, ter, haver;
  • Amanhã eu vou ir, ao invés de “amanhã eu irei”; A gente vai ir ao cinema, ao invés de “iremos ao cinema”. O verbo no futuro foi esquecido.
  • Redundância: “fiz algo há 15 anos atrás”. O correto é “fiz algo há quinze anos”, ou “fiz algo 15 anos atrás”;
  • Ninguém mais fala “hóspedes”, “clientes”, agora todos são “usuários”;
  • “Fico no aguardo” em vez de “aguardarei”;
  • “Cujo o nome”. Não existe o artigo antes de “nome”. É apenas “cujo nome”.
  • Vícios de linguagem: “tipo”, “Ttipo assim”;

Sendo a língua materna orgânica, ela vai absorvendo novos termos, naturalmente. Exemplos:

  • “Vossa mercê”, usado no Brasil Colonial. Com o uso orgânico, nas ruas, virou “vosmicê”, que depois evoluiu para “você”, que usamos hoje em dia. Curioso notarmos que apenas em São Paulo é utilizado o “você”. No restante do Brasil, o mais comum é “tu”;
  • Antigamente, falava-se “vamos na festa que ferve”. Com o tempo e uso comum da língua, tornou-se hoje o ritmo que chamamos de Frevo;
  • Durante a 2ª guerra, os militares americanos que estavam aqui falavam muito de uma festa que era para todos, em inglês, “for all”. Assim, com o uso massivo, acabou nascendo a palavra forró.

Outro ponto importante: há apenas 150 anos, São Paulo falava tupi-guarani. Alguns termos originários dessa época:

  • Anhangabaú = água da face do diabo;
  • Ubatuba = lugar de canoas;
  • Mantiqueira = gota de chuva;
  • Cumbica = nuvem baixa;
  • Jurubatuba = muitos jerivás (espécie de palmeira). Primeiro nome do rio Pinheiros, que recebeu o atual nome em 1950.

Tudo o que foi colocado aqui é para entendermos que toda língua é orgânica, evolui sempre, ou seja, a pessoa não aprende apenas na escola, mas também no dia a dia, nas conversas com seus pais, assistindo televisão, na internet, lendo revistas e jornais. Não apenas quando está estudando. Aprende, mesmo, olhando para o mundo! Logo, crianças e jovens, que têm como referência adultos que não sabem usar a língua materna, não a compreendem corretamente e, logo, não conseguem ter um bom vocabulário para desenvolver uma redação que seja ao menos razoável. Portanto, se houver culpados, não são os jovens.

18 comentários sobre “A culpa não é dos jovens

  1. Bom dia! Concordo com grande parte do seu texto, porém não podemos isentar os jovens dessa responsabilidade. Concordo quando tem que existir o acompanhamento de um adulto, mas o simples fato de não saber ler e/ou escrever não deve ser usada como desculpa. Meus pais não sabem ler e escrever, porém eu me interessei, aprendi e tenho certeza que não faço feio em uma redação seja la qual for o tema. Acho que a culpa é dos jovens quando muitos deles não sabem ou não querem usar a tecnologia da maneira correta. Muitos deles não lêem livros porque preferem assistir tv, jogar videogame ou começa a trabalhar cedo e acha “cansativo demais” estudar. Passei por tudo isso, sou usuário ativo da tecnologia e nas horas vagas adoro ler. O que falta para nossos jovens é simplesmente querer ler.

  2. “(…)Curioso notarmos que apenas em São Paulo é utilizado o “você”. No restante do Brasil, o mais comum é “tu”;(…)”. Hein? O “tu” como pronome pessoal reto da segunda pessoa é usado nos extremos do Brasil (conheci gaúchos e paraenses que usavam e abusavam do “tu sabes”, “tu dizias” etc.). Mas lá no meu RJ, e se não me engano em MG e outras terras do Brasil Central, sempre foi o “você” flexionando os verbos em terceira pessoa. O que se tem feito muito, e não apenas no RJ mas também em SP, é usar o “tu” e a flexão do verbos na terceira pessoa: “Tu sabe quem é esse sujeito?”, “Tu falou que isso não era o modo certo”.

    1. Concordo. Em MG não usamos o “tu”, e sim “você”. Na realidade falamos mais “cê” ou “ocê” do que “você”. Claro q não vou dizer q é toda a Minas Gerais, mas algumas localidades é assim…

  3. É aquela velha máxima, cada tem sua opinião mas, sinceramente pouco se aproveita desse texto, digitou muito para não dizer quase nada. O grande problema no Brasil claro que não em um modo geral mas em grande parte é que, o normal à se esperar de uma sociedade ao passar de geração é que esta esteja mais evoluída que a anterior, porém, está mais do que claro o declínio dessa geração em termos gerais cultural, político, comportamental a cada dia que passa. E assim, estes interessados mais em arranjar culpados pelos erros do que aceitar que estão errados e procurar evoluírem intectualmente estão se multiplicando então não há muitos isentos nessa história. Enfim, se prosseguirmos este caminho não esperem que as coisas melhorem.

  4. Concordo plenamente, de fato chega a ser quase impossível exigir que um jovem que vive e fala de um jeito escreva de uma forma totalmente diferente do que tem aprendido todos os dias desde a infância.

  5. Não consigo ensinar aquele que não quer aprender. E isso, infelizmente, tem sido algo recorrente na escola. Os alunos acham que aprender tem que ser divertido, porém, nem tudo é divertido. Redigir não é divertido. É um trabalho árduo. Exige concentração. Exige conhecimento prévio e para se ter o mesmo, há a necessidade de leitura, leitura, esta, que nem sempre é de prazer e assim sucessivamente.

  6. Falou, falou, falou e nao falou nada. Fora o primeiro paragrafo nada eh novo. Ja sabiamos de tudo o que foi escrito ai. Pensou que estava inventando a roda? Vichi… ja foi inventada e esta em uso faz muito tempo….

  7. Olha o que eu sei é que na redação também faltou a atenção e o controle no tempo para fazê-lo. Apliquei a prova no ano passado e houve casos de candidatos que não preencheram a folha de redação ou a deixaram incompleta, fazendo com que tirassem nota mínima ou zero. Claro q isso deve ter sido o mínimo se comparado com a falta de compreensão do tema ou do vocabulário/expressões para desenvolver a redação. Mas a falta de atenção do candidato também tem que ser levado em conta e ser melhor trabalhado.

  8. Se o autor tivesse estudado linguística, saberia que não existe português “certo” ou português “errado”, apenas variantes linguísticas diferentes.
    Não cabe ao autor dizer que todos deveriam dizer “para eu fazer”, já que ele mesmo, ao falar, não utiliza a norma culta o tempo todo – por exemplo, um “erro” comum é na colocação pronominal: “me dá esse livro”. E nem deveria utilizar, ora, não se fala como se escreve! É irreal esperar que as pessoas falem “corretamente”, seguindo todas as regras da correção gramatical em sua fala.
    Reflita, quem tem responsabilidade se as crianças não sabem escrever? Se elas não tiveram contato suficiente com o texto escrito, seja porque isso não é valorizado em nossa cultura, seja porque não houve esse tipo de contato nas escolas, sim, a culpa não é delas. Mas você não pode prescrever um português dito correto e achar que essa é a solução de toda uma problemática social e histórica, de todo um problema no sistema educacional.

  9. Exatamente, não existe certo ou errado em se tratando de linguagem. Tanto é que a palavra presidente citada no texto aparece em sua forma feminina no dicionário Aurélio Júnior, na 2°ed em 2011. A nota que o grande Aurélio Buarque de Holanda Ferreira coloca é que essa forma está consagrada pelo uso e é possível a exemplo de infanta (registrada desde o sec. XIII). Segue a forma padrão regular do feminino nos vocábulos portugueses ou aportuguesados onde acrescenta-se a. Seria interessante que a autora nos explicasse por que acredita na forma única para presidente. Consideras um adjetivo vindo da 3° declinação do termo em Latim praesidens? Enfim, existe muito o que debater só sobre essa questão.
    Por fim, moro no RS e digo que nosso povo usa corretamente a conjugação da 2° pessoa do singular e do plural em todos os tempos verbais do modo indicativo, incluindo a forma foste, viste, compraste do pretérito perfeito.

  10. Concordo com o Nilson, a muita falta de interesse do próprio jovem, a preguiça tomou conta da nossa juventude. Só pegar um texto no face escrito por eles, escrito com palavras cortadas um horror de comunicação. E não tem desculpas que livros são caros, em vez de ficar divulgando bobagens pela NET, tem muitos textos interessantes para uma boa leitura e treinar nossa maravilhosa língua portuguesa.

    1. Como você espera que os jovens tenham interesse nessas leituras, se o país forma tantos analfabetos funcionais? E outra, a piora dos resultados da redação do enem se explica por um aumento da preguiça dos estudantes?

  11. Creio que a partir do momento que 6 milhões realizaram a prova e desses 529 mil tiraram nota zero em redação é difícil dizer que a culpa não está neles, já que a maioria teve capacidade para fazer uma redação e pontuar.
    Creio também que seria tirar o mérito dos 250 que conseguiram pontuação máxima!
    Na minha opinião, a culpa é 100% de quem zerou nessa redação, poderia culpar a escola se esses estudassem no mesmo local, com os mesmos professores e mesmas condições, fora esse quadro a culpa é exclusiva deles. Nem eu e nem a mídia temos culpa.

  12. Olá.
    Deixo aqui uma sugestão.
    Acredito que possa ter havido um pequeno engano no emprego da palavra “invés”.
    O que poderia ser melhor utilizado seria a sentença “em vez de”, pois utilizamos o “invés” em situações antônimas, como por exemplo: “Ele subiu ao invés de descer”.

    Adorei o texto.

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