Educação na Era do Não-Olhar

Não Olhar“A imaginação é mais importante que o conhecimento. A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro. Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas”
Albert Einstein

Minha neta olha atentamente para o avó, Saulo, meu marido. Ele segura um pincel em uma das mãos, ela também. Na tela a sua frente, o Educador e Artista joga pigmentos coloridos, abstratos. Minha neta, olha de novo, pensa por um momento, busca escolhas, larga o pincel e resolve usar os dedos. Todos os dias, a Arte está presente na minha vida.

Momentos de interação como este estão cada vez mais raros hoje em dia. Foram trocados por compartilhar, curtir, googlar (pesquisar no Google, aprendi com um Zezinho) e ainda o tal do whatsup. A tecnologia é um trem bala. Ela avança, abre caminho e carrega junto quem quiser embarcar (ou não). É outro ritmo, outra harmonia. É ciência também (toda matemática e logística que envolve os processos de criação, etc) e a Casa do Zezinho segue junto com várias Oficinas Digitais como a Web 2.0 e nossa Oficina de Aplicativos. Nossas crianças e jovens vão estar preparados para um mercado de trabalho que cria profissões novas e modernas como Programador de Games ou Segurança da Informação. Mas como educadora, eu tenho que olhar o quadro inteiro. E o quadro não é sempre bonito.

Anti SocialA introversão é uma fase normal no desenvolvimento da criança e do jovem, um estágio necessário para “sair da caverna” e busca o outro e o mundo lá fora através do contato com a escola, amigos, trabalho, lugares além da própria casa e família. Muita gente esquece que o ser humano de hoje ainda é, biologicamente falando, o mesmo de tempos atrás. Toda essa evolução tecnológica não mudou as necessidades psico-emocionais que cada um carrega dentro de si. Vou dar uma de pedagoga e te falar um pouquinho sobre Piaget:

“Jean Piaget (1896-1980) desenvolveu estudos psicogenéticos objetivando compreender como o ser humano conhece o mundo (material e simbólico) e descobrir quais seriam os mecanismos cognitivos utilizados pelo homem para conhecer este mundo. Piaget desenvolveu suas pesquisas iniciais em biologia, mas suas preocupações com o conhecimento levaram-no diretamente à psicologia, que é de onde, por meio de pesquisas experimentais, construiu sua teoria do desenvolvimento cognitivo. A teoria piagetiana preocupa-se em compreender a gênese (origem) e a evolução do conhecimento humano e, diante desse objetivo, procura identificar quais são os mecanismos utilizados pela criança para conhecer o mundo. O ato de inteligência pressupõe pois, uma regulação energética interna (interesse, esforço, facilidade)…(Piaget, 1977, p 16)” – As compreensões do humano para Skinner, Piaget, Vygotski e Wallon: pequena introdução às teorias e suas implicações na escola

Piaget fala muito sobre afetividade como a base para o aprendizado. Isso vai desde a ligação entre aluno e educador até o estado emocional e íntimo que pode influenciar negativamente o desenvolvimento. Coisas como violência doméstica e social, por exemplo. A criança perde a concentração em ambientes caóticos e sem criatividade. Perde o interesse e a paciência. Perde, inclusive o lúdico, a capacidade de imaginar outros níveis de realidade e fantasia. Perde o seu próprio Olhar para o mundo lá fora e para dentro de si mesma.

brincadeiras-festa-2Acredito que Einstein não era bem desse mundo. Sua capacidade de previsão era incrível. Einstein foi um aluno normal mas que ficava entediado na escola e não via desafios no aprendizado da sua época. “Você não vai dar em nada na vida”, chegou a ouvir de um professor na 7ª série (fonte: site mundoestranho). A frase lá em cima tem uns 60 anos. Somos uma geração de idiotas? Aqui na Casa do Zezinho não!

Eu tenho tablet, celular e Facebook. Mas também tenho filhos, netos e amigos, muitos amigos. Eu quero e preciso da companhia deles, desse contato orgânico que é impossível pelas Redes Sociais. Parece que a sociedade como um todo está perdendo essa afetividade. Certa vez, eu proibi, durante uma semana, qualquer comunicação por e-mail, telefone e celular fora do horário de trabalho da CZ. Para se comunicar, os educadores tiveram que ir ao encontro, ir na casa do outro, se olhar, redescobrir a presença. Foi uma experiência louca mas que reduziu o número de e-mails desnecessários e a inércia de ficar sentado ao telefone.

Agora as pessoas ficam uma ao lado da outra e não se falam, monossilábicos e hipnotizados pelas diversas telas. Isso é perda de afeto, é a volta para caverna. Devagar, perderemos o olhar que dá licença, que oferece o banco do ônibus para o outro sentar, que se coloca disponível. Fica óbvio o aumento da violência e da depressão no sec. XXI onde é mais importante um “Selfie” do que o “Self”. Não sabe o que é Self, educador? Eu ajudo:

“Segundo William James, um dos pais da psicologia, o Self (si-mesmo) pode ser definido como:
1. a consciência reflexiva, que é o conhecimento sobre si próprio e a capacidade de ter consciência de si;
2. a interpessoalidade dos relacionamentos humanos, através dos quais o indivíduo recebe informações sobre si;
3. a capacidade do ser humano de agir.

Esse conhecimento que o “eu” tem sobre “si mesmo” tem dois aspectos distintos: por um lado, um aspecto descritivo chamado autoimagem e por outro, um aspecto valorativo, a autoestima.” – (Wikipédia)

Gosto da definição mais simples: Self é respeito pelo próximo e pronto. Respeito pela presença, pelo tempo junto, pela experiência do convívio. Uma autoestima compartilhada ao vivo como os dedos de uma criança nas tintas do quadro que vai pintar ao lado do avô. Isso, nenhuma tecnologia vai conseguir imitar.

E então, como é que vai ficar? Hein?
E já falei demais. Até a próxima.

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