Carta da Tia Dag

Em 1993, quando resolvi fazer a Casa do Zezinho, já trazia 21 anos de periferia no coração. Foi uma luta brava e um longo aprendizado. Comecei esse trabalho atendendo crianças na Favela do Fedô, Parque Arariba, zona Sul de São Paulo, ao redor da minha casa, onde morava com meu marido e filhos. Sou uma dessas brasileiras que nunca se conformou com a exclusão. Vinda de uma família de educadores e formada em pedagogia, arregacei as mangas e não parei mais.

Por que permaneci nesta luta? Porque defendo o direito de sonhar que a criança tem, o direito que ela tem de escolher seu destino, pertença ela a que classe for. O que a gente tem visto hoje em dia é que muitas famílias vêem o filho como mão de obra, já nasce com esse carimbo, seja pobre ou seja rico (lógico que para os pobres isso é ainda mais explícito). Se é pobre vai fazer cursos de profissionalização, se é rico vai fazer inglês, francês, alemão, computação, tênis, futebol, tudo porque os pais já projetam o futuro do filho. Alguém se lembrou de perguntar para a criança o futuro que ela quer? E assim nega-se a ela um futuro com autonomia de escolha.

E as crianças da periferia? Por que elas têm que ser programadas para o trabalho árido, sem sonhos, sem prazer, sem lazer? Por que o modelo que é válido para a criança da periferia é o do curso profissionalizante? E a arte, a cultura, a brincadeira? A criança já não brinca mais, ela pula esta etapa. Por que pular etapas? O que é que isso traz de bom para a criança? Por que ela não pode ser moleque e esperar para ser adulta quando adulta ela for? A criança tem que crescer feliz, sem pular etapas, porque quem cresce feliz vai saber escolher seu futuro. E sabendo, e podendo, escolher o próprio futuro, já é meio caminho andado para que ela seja bem sucedida na vida, seja lá o que for que ela escolha para si mesma. A escolha foi dela, consciente.

Finalista do Prêmio Empreendedor Social 2011
http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/finalistas/2011-dagmar-garroux.shtml

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ENGLISH VERSION

In 1993, when I decided to formally establish Casa do Zezinho I already carried 21 years of inner city in my heart. It was a harsh fight and a long learning process.

I started out working with children at the Fedô slums, within Parque Arariba, also an inner city neighborhood at the south side of São Paulo. We worked around the house, where I lived with my husband and sons. I am one of these Brazilians who has never agreed with exclusion. Having come from a family of educators and graduated in Pedagogy I rolled up my sleeves and moved on, never stopping to look back.

But why did I keep on fighting? Because I defend the right a child has to dream, the right a child has to choose his/her destiny, no matter to what social bracket she belongs.

The most common situation today is to have families that view their children as workforce, they are born with this stamp, whether they are poor or rich (no doubt for the poor this is undeniably in the open). If the child is poor, his/her destiny is to attend professional courses, on the other hand, rich children attend English, French, German, computer, tennis and soccer classes, all due to the fact that parents have already designed their future. Has anyone remembered to ask the child what she wishes her future to be? Therefore he/she is constantly denied a future with self-determination, where individual choice is an option.

And what about the inner city children? Why do they have to be programmed with dry work perspectives, with no dreams, no pleasure, no play? Why must the reliable model for an inner city child be professional courses? What happens with art, and culture, and play? The child cannot play anymore, she jumps this step. But why should this step be jumped? How is this good for a child? Why can’t she be a real child and wait to become an adult when she really is an adult? A child has to grow up happy, without jumping steps, because the joy in growing up comes from being able to make choices. To be able to make choices in life is the half way towards being successful in life, whichever the choice made. This choice has been made, consciously.

Auntie Dag (Dagmar Garroux, Casa do Zezinho’s President)

5 comentários sobre “Carta da Tia Dag

  1. Parabéns pelo maravilhoso trabalho de ordem social, que tantos beneficios tem trazido para os menos favorecidos, Continue! A sra. é sem dúvida uma pessoa-ponte.. Poderia conhecer um pouco dos resultados alcançados?
    José Rodrigues da Costa

  2. Encontrei esse site por acaso! Fiquei encantada com seu trabalho. Existem tantos Zezinhos no mundo precisando dessa solidariedade… o que acha em estender esse trabalho? Aqui na Suíça, os jovens necessitam de mentores, para escaparem da depressão e das garras do suicidio.

  3. Li o livro Pedagogia do Cuidado e estou assustada com a crueldade que nossas crianças e jovens enfrentam. Ao mesmo tempo fiquei encantada com o trabalho realizado pela Casa do Zezinho. Parabéns! Precisamos de muitas “tia Dag” nesse país para enfrentar a cruel realidade com amor, respeito, dignidade e coragem para ajudar mudar … Ainda quero conhecer de perto esse trabalho maravilhoso.

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